Dois livros: um universo Extraordinário
Título: Extraordinário| Autor: R.J. Palacio| Tradutor: Rachel Agavino| Editora: Intrínseca| Ano: 2013| N° de Páginas: 318| Livro Físico | Nota: 📖📖📖📖📖
FICHA TÉCNICA
Título: Auggie & Eu| Autor: R. J. Palacio| Tradutor: Rachel Agavino| Editora: Intrínseca| Ano: 2015| N° de Páginas: 318 | Livro Físico | Nota: 📖📖📖📖
“Toda pessoa
deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós
vencemos o mundo.” (Extraordinário, p. 313)
Eu
tinha que começar esta impressão literária com essa passagem ou, como diria o
Sr. Browne, com este preceito, porque acho que ela traduz com maestria a
essência dessa história: a celebração das diferenças humanas. R.J. Palacio nos
lembra, com a história de Auggie, que cada um de nós é único e a preciosidade
da vida consiste nisso.
Extraordinário nos conta a
história de August Pullman ou, como todos o conhecem, apenas Auggie. Auggie é
um garoto de 10 anos como qualquer outro: adora jogar vídeo game e tem
verdadeira obsessão por Star Wars. No entanto, Auggie é diferente em uma só
coisa: ele nunca freqüentou uma escola na vida e está preste a iniciar esse
desafio.
O
motivo pelo qual o Auggie nunca ter freqüentado a escola é que ele nasceu com
um problema de saúde: uma síndrome genética que lhe causa deformações faciais e
lhe conferem tanto uma aparência incomum, como também muitas dificuldades para
fazer coisas simples como comer ou respirar. Por isso, Auggie Pullman passou
grande parte da sua vida em quartos de hospitais se recuperando de cirurgias
que lhe ajudaram a ter uma vida com maior qualidade. Porém, essa rotina sempre
o impediu de freqüentar a escola.
Quando
faz dez anos, Auggie já não precisa passar por tantas cirurgias como no passado
e, assim, sua mãe Isabel acha que está na hora do filho ir para a escola. De
início, o Auggie não se sente nada feliz com essa possibilidade, mas um dos
maiores valores que vemos nesse garoto é a coragem e vai ser com ela que ele
enfrentará esse desafio.
De
forma leve, simples e muito bem-humorada, R.J. Palacio escreve o dia a dia de
Auggie na nova escola, as amizades que ele faz, suas inseguranças, seu sucesso
nas aulas de ciência e, claro, o bullying que infelizmente o Auggie sofre por
causa de sua aparência. Mas, como falei antes, Auggie Pullman é um garoto
corajoso e ele enfrentará todos esses desafios de cabeça erguida e sem nunca
perder a doçura da infância.
O
mais interessante desse livro é que ele é contado da perspectiva de vários
personagens da história. E a Palacio nos faz ter raiva por um breve momento de
certos personagens e depois, em poucas páginas adiante, compreendê-los e
perdoá-los por não serem tão legais com o Auggie em certas ocasiões. A autora
nos faz entender que as relações humanas não são tão fáceis como esperamos que
sejam. Conviver não é preto no branco e ninguém é perfeito. Todos cometemos
erros e sempre podemos voltar atrás e fazer diferente.
“Por isso nossos
feitos são nossos monumentos. Construídos com memórias em vez de pedras”
(Extraordinário, p. 72)
“minha mente gira
com isso, mas então surgem pensamentos mais suaves, como um terceiro violino em
uma sinfonia de cordas. não, não é tudo um acaso. se fosse, o universo nos
abandonaria à própria sorte. e o universo não faz isso. Ele cuida das suas
criações mais frágeis de formas que não vemos. como pais que amam cegamente. e
uma irmã mais velha que se sente culpada por ser humana com relação a você. e
um garotinho de voz grave que perdeu os amigos por sua causa. e até uma garota
de cabelo rosa que carrega sua foto na carteira. talvez seja uma loteria, mas o
universo deixa tudo certo no final. o universo cuida de todos os seus
pássaros.” (Extraordinário, p. 210)
Auggie & Eu não é uma
continuação do universo de Extraordinário,
apesar de se passar nele. Aliás, na introdução do livro a R.J. Palácio deixa
bem claro que não pretende estender a história do Auggie. Ela prefere que ele
cresça em nossa imaginação e tenha um destino único no coração de cada um. Auggie & Eu, na verdade, é a versão
de alguns dos personagens que não tiveram fala em Extraordinário. São três contos: O capítulo do Julian, Plutão e
Shingaling.
O capítulo do Julian, como o próprio
título já sugere é a versão do Julian da história e chance dele se redimir. É
que o Julian é o principal agressor do Auggie na escola e no livro Extraordinário ele não tem voz. Algo que
a Palacio também explica o porquê, já que ela não queria vitimizar o agressor. O
que é uma escolha certeira. O Julian se redime, se arrepende, mas continua
responsável pelos seus atos. Afinal, passar a mão na cabeça nunca salvou ninguém,
não é?
A
história Plutão conta um evento da
vida de Christopher, que é o melhor amigo de Auggie, mas que é só citado
durante Extraordinário. É que
Christopher se mudou e ele e Auggie só tem contato através de facetime e
telefone. Tenho que te confessar que foi o conto mais fraco dos três. É que o
Christopher é um pré-adolescente típico: chato, revoltado e fechado pro mundo.
Mas a história passa uma mensagem legal no final das contas: nunca deixe para
dizer “eu te amo” para depois, porque talvez não dê tempo.
Já Shingaling conta a história da
Charlotte, que é uma das alunas escolhidas para dar boas vindas ao Auggie na
escola. Ela é uma aluna brilhante e uma garota muito legal, mas não corajosa o
suficiente para enfrentar o desafio de ser amiga de August Pullman. Esse conto,
dos três, é o que eu mais gostei. Ele conta como surge uma amizade secreta
entre uma nerd, uma garota popular e uma, como posso dizer, neutra na vida
social escolar. A mensagem é incrível!
“Eu acredito que um
sonho é como um desenho em sua mente que vai ganhando vida. Você tem que
imaginá-lo primeiro. Depois tem que trabalhar muito, muito pesado para torná-lo
realidade.” (Auggie & Eu, p. 215).
“Não basta ser
amigável. Você tem que ser amigo.” (Extraordinário, p. 312).
Enfim,
esse universo de Extraordinário é,
como o próprio nome já fala, extraordinário. A história do Auggie Pullman nos
inspira a ser e dar o melhor que nós somos. Nos lembra que são as diferenças
que nos impulsionam para frente. Arrisco a afirmar que essa história deveria
ser lida nas escolas por crianças e adolescentes. É importante que o “nosso
futuro” tenha contato com valores tão incríveis e necessários para conviver
harmoniosamente. Quem sabe assim não escrevemos uma história mais bonita para a
humanidade?
“-...
mas o que quero que vocês, meus alunos, levem de sua experiência no ensino fundamental –
prosseguiu – é a certeza de que, no futuro que vão construir para si, tudo é
possível. Se cada pessoa nesse auditório tomar por regra que, onde quer que
esteja, sempre que puder, será um pouco mais gentil do que o necessário, o
mundo realmente será um lugar melhor. E, se fizerem isso, se forem apenas um
pouco mais gentis que o necessário, alguém, em algum lugar, algum dia, poderá
reconhecer em vocês, em cada um de vocês, a face de Deus (Extraordiário,
p.303).”




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