A Mulher Desiludida: acho que escrevi uma carta a mim mesma






Título: A Mulher Desiludida | Autor:  Simone de Beauvoir | Tradutoras: Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa | Editora: Nova Fronteira | Ano: 2010 | Nº de Páginas: 254 | Livro Digital | Nota: 📖📖📖📖📖 + 💗






A primeira vez que ouvi falar de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre eu tinha 17 anos, durante uma aula de filosofia. Aquele amor livre deles dois, do qual eu nunca tinha ouvido falar, despertou em mim a curiosidade em descobrir o desconhecido. O diferente , o fora-da-caixa sempre me fascionou de forma muito profunda. Prometi-me que leria algo deles e sobre eles algum dia. Mas, era ano de vestibular, coisas mais "importantes" tinham pela frente. Então, veio a faculdade, o estágio, TCC, busca pelo emprego dos sonhos e todos esses compromissos que a gente acha que é viver. Esqueci-me deles, de seus nomes, de seu amor livre, e de suas ideias que influenciam tanto a modernidade até hoje.

Ouvi falar da Simone outra vez um pouco mais tarde, há uns poucos anos atrás, quando resolvi assistir Gilmore Girls. Coloquei-a como metas de leitura, pois alguém que trabalhou em prol do feminismo era alguém que merecia ser lida. Na época, eu estava voltando com meu hábito de leitura, e pensei que talvez Beauvoir fosse um pouco demais para aquela fase. A gente tem essa mania estranha de achar que autores importantes são difíceis de ler. Acaba que adiamos de aprender e ter contato com algo incrível por pura bobagem.

Foi só em 2019 que eu, pela primeira vez, peguei um Simone de Beauvoir em mãos, e só por causa de uma leitura conjunta que fiz. Eu ainda tinha "medo" de ler Simone. Então, fiz a leitura, e me arrependi de não ter tentando antes.  A escrita da Simone é fluida e simples, mas viceral. Não dá para parar o conto pela metade. A gente tem que ler ele todo de uma vez. Também não dá emendar um no outro, porque eles precisam de um tempo para "digestão".

Assim, por A Mulher Desiludida ter demasiadamente me encantado e estranhamente falado com minha alma (já que as histórias retratam o envelhecimento feminino e eu ainda sou uma jovem senhora de 27 anos), eu procurei um pouco mais sobre a autora. Foi quando liguei o seu nome àquela escritora, a seu marido e a seu amor livre que tanto me fascinaram e desafiaram naquela aula de filosofia aos 17. Aí, eu lembrei da promessa que fiz de conhecer aqueles dois e notei o quanto não sou boa em cumprir as promessas que faço a mim mesma.

Os contos contidos em A Mulher Desiludida representam finais de ciclos na vida de mulheres diferentes e que  conviveram diferentemente com o evento "ser mulher" e com os papéis que se esperava que elas desempenhassem. São mulheres na meia idade que lidam de forma distinta com o envelhecimento e com o pouco valor que nós, mulheres, passamos a ter quando já não "servimos para nada", já que nossa juventude (e consequentemente nosso encanto) se foi, já que não somos mais mulheres "férteis"... 

Os contos retratam mulheres que vivem a angústia de acreditar que o melhor da vida já passou, que o melhor DELAS já passou e que não merecem amor ou felicidade,  como se os finais de ciclo fossem apenas finais e não o começo de um outro. Talvez, seja esse o motivo da minha identificação com os contos. Não por retratarem o envelhecimento, já que nunca vivi tal realidade, mas por que essas mulheres têm dificuldade de lidar com finais de ciclos, assim como eu. Mera mortal, não é? Que atire a primeira pedra quem não sente insegurança quando tem de mudar as velas de lugar para mudar a direção da vida.

Posso contar nos dedos quantos livro me fizeram sentir tanta angústia quanto A Mulher Desiludida me fez sentir nessa minha breve estrada de leitora. No entanto, são justamente eles que se tornam os nossos preferidos da vida, porque nos fazem descobrir e reconhecer algo perdido dentro da gente. Ajudam-nos a reencontrar forças perdidas que sempre guiaram o que nós somos no mais puro sentido que isso pode ter. A Mulher Desiludida me fez reencontrar a curiosidade latente pelo diferente que sempre em mim habitou e que forcei a ficar escondida por causa das "coisas importantes da vida". Acabei descobrindo que preciso de alguma forma trabalhar essa minha dificuldade para encerrar os ciclos da vida, para que eles sejam menos traumáticos, menos longos e mais valorosos.

Bem, com esse texto, eu deveria te convencer a ler esse livro, mas tenho consciência de que quase não falei dele. Falei mais sobre mim mesma  e sobre como ele me provocou. Talvez, por isso, eu relutei tanto em escrever uma impressão literária sobre ele. Realizei essa leitura em outubro e só escrevo uma resenha 3 meses depois, só para ter uma ideia. Sabia que sairia algo pessoal demais. E saiu. Mas, aí já está. O que eu escrevi já não é meu, é do mundo, não tem o que fazer. Pelo menos, era o que um professor meu de literatura me dizia. 

Eu sinceramente espero que você leia A Mulher Desiludida e que ele seja tão esclarecedor para você quanto o foi para mim. Se não for, paciência. Talvez, você não tenha os mesmos defeitos morais que os meus. Seu livro é outro. Quanto a mim,  espero que eu me proponha a ler outros Beauvoirs, e alguns Satres, e que eu não permita mais que a vida ou o medo engula minha curiosidade em descobrir o mundo outra vez.

PS de revisão: Claro que não dá para negar o experimento social dessa obra. Apesar de eu ter falado, quase que exclusivamente, de forma pessoal sobre o livro, é um crime ignorar a análise social que os textos contém. Simone estava muito lúcida quando escancarou em seus textos a crueldade que um sistema patriarcal, que, além de tudo, supervaloriza a juventude física, provoca em corpos femininos, sobretudo envelhecidos. A necessidade esquizofrência de dar utilidade material, até mesmo a vidas, causa-nos sofrimentos que mal conseguimos prevê-los ou reconhecê-los, sendo que tudo o que nossas vidas precisam é de um sentido. 

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