O Conto do Inverno - William Shakespeare | Tradução: José Roberto O'Shea (Editora Iluminuras)
Sabe aquelas histórias que te fazem pensar na vida? Será que, se eu fosse menos egocêntrica e deixasse de lado essa minha extrema necessidade de estar sempre certa, eu amenizaria os sofrimentos que já me acometeram? É bem o que a história do rei Leontes nos mostra. Quantos dos nossos sofrimentos somos nós mesmos que provocamos? Quantos poderíamos evitar se vivêssemos para corrigir os defeitos mais simplórios que temos na alma, como o ciúme, a insegurança, o orgulho?
O "conto" se passa em dois reinos: o da Sicília, onde reina Leontes ao lado de sua honrada esposa Hermione, então grávida, e do seu pequeno filho, o príncipe Mamillius; e o reino da Boêmia, cujo rei é o Políxenes, amigo de infância de Leontes.
Na cena inicial, Políxenes está na Sicília, em visita ao seu melhor amigo Leontes. Políxenes precisa voltar ao seu reino, mas Leontes insiste que ele fique por mais tempo e, para isso, pede ajuda a Hermione. A rainha consegue convencer o rei da Boêmia a ficar mais um pouco, mas isso faz com que Leontes comece a ver coisas que não existem. O rei da Sicília se convence de que sua esposa está tendo um caso com seu melhor amigo e que a criança que ela carrega no ventre é fruto dessa paixão proibida.
E não há quem tire a ideia da cabeça de Leontes¹ e, numa cena engraçada (apesar de trágica) e cheia de trocadilhos, manda que seu servo e nobre Camilo envenene Políxenes para "vingar a sua honra". Camilo, sabendo que Leontes estava errado e que cometeria uma injustiça se seguisse às ordens de seu rei, previne Políxenes da intenção de Leontes e os dois fogem da Sicília na surdina.
Leontes, por sua vez, encara a fuga como uma confissão e toma a atitude de Camilo como traição. A rainha Hermione é quem padece com a loucura e tirania de seu marido. Leontes a manda presa e é na prisão que Hermione dá à luz à Perdita. O louco rei deseja condenar a esposa sem direito a nenhum julgamento, mas com a insistência de um outro nobre, o Antígono, ele manda Cleômenes e Dion ao oráculo de Apolo para que o deus revele se Hermione é ou não culpada.
Enquanto isso, Paulina, esposa de Antígono, inconformada com as atitudes do rei para com a rainha, decide visitá-la em sua prisão. No entanto, o máximo que ela consegue é falar com uma criada para ter notícias de Hermione. Paulina pede autorização à Hermione para levar a pequena Perdita na presença do rei para que, assim, o rei amoleça o coração e desanuvie os olhos, enxergando a verdade. Mas nada é suficiente para trazer Leontes à razão. Em sua ira, manda que Antígono abandone a pequena princesa à sua própria sorte numa floresta e antecipa o julgamento de Hermione, mesmo sem a resposta do oráculo.
Ao meio do julgamento, chega Cleômenes e
Dion com a resposta do oráculo, que inocenta a rainha e traz também uma
profecia:
"Hermione é casta; Políxenes, isento; Camilo, súdito
fiel; Leontes, tirano ciumento; a criança inocente, concebida em legitimidade;
e o Rei viverá sem herdeiro, se a que foi perdida não for encontrada."
Ainda assim, Leontes
acredita que suas desconfianças são verdadeiras e é então que se desencadeia uma
série de acontecimentos que determinarão o sofrimento do rei e o destino dos
outros personagens: o príncipe Mamillius, na aflição de ver a mãe condenada,
morre de mal súbito; a rainha, com o desgosto de ver a família acabada pela
tirania do marido, forja a própria morte; Antígono, após abandonar a inocente
princesa à própria sorte, é comido por um urso selvagem e os homens que lhe
acompanharam durante a maldita viagem morrem com o naufrágio do navio; Perdita
é encontrada por uma pobre família de pastores, por quem é criada.
Daí em diante, a
história vai se desenrolar a partir da paixão de Florizel, príncipe da Boêmia e
filho de Políxenes, pela simples pastora Perdita. Fugidos, eles vão acabar na Sicília, onde eles descobrirão que a plebeia Perdita, na verdade, é a princesa perdida da Sicília.
Como dá para ver, a história é um tanto quanto dramática, mas tem aquele toque de humor, o que deixa leitura mais leve. Grande parte do bom humor fica por conta da atuação do vigarista Autólico, que apesar de ser um golpista profissional, vai ser fundamental para ajudar a descobrir que Perdita é a princesa perdida da Sicília.
Grande destaque quero dar a Hermione e a Paulina. São mulheres fortes e corajosas, que mesmo diante de um rei tirano (e da morte) não têm medo de dizer a verdade e o que pensam. Paulina, por exemplo, diz coisas como "Sabei, senhor, em mim ele não manda.", após o rei mandar que Antígono controlasse à esposa. Ela também chama o rei de louco, de tirano, defendendo sem medo a inocência da rainha: "... sou tão digna/ Quanto sois louco, ...", "Que torturas, tirano, a mim reservas?". Ela também protegerá Hermione enquanto esta fica escondida do rei, até que se encontre Perdita. Apesar de amargar a viuvez, ela não deixa nem por um segundo a lealdade ao reino.
Confesso que me chateou o fato da cena da descoberta da verdadeira identidade de Perdita ser narrada por terceiros (a cena é narrada por três personagens "anônimos"). Acho que ver a cena interpretada pelos personagens propriamente envolvidos na trama seria emocionante. Mas, essa falta é suprida pela emoção da cena de "ressurreição" de Hermione, que, ao ver o arrependimento do marido e a ternura da filha perdida, se revela viva com um "truque de mágica" de Paulina. A cena, aliás, é linda.
Essa edição da editora Iluminuras contempla ainda três textos de apoio iniciais que situam o leitor previamente no contexto histórico da época em que a peça foi escrita, bem como das dificuldades de tradução de um texto e da importância de Shakespeare para a sociedade moderna. O texto ainda traz notas de rodapé que explicam especificamente algumas traduções e algumas limitações que a tradução impõe como, por exemplo, trocadilhos que na versão original traziam um toque de humor ao texto, mas que é impossível utilizar o mesmo mecanismo em Português. Isso deixa a leitura "mais rica".
Enfim, sou suspeita para falar de Shakespeare, pois amo sua obra de todo o coração, mas afirmo que é uma ótima peça e que valer muito (muito mesmo) a pena ler (ou assistir no teatro quando tiver oportunidade, por que não?)
¹ Não sei se é impressão minha, mas durante toda a primeira parte da peça, enquanto lia as falas de Leontes, só me lembrava de Bentinho de Dom Casmurro. As histórias são completamente diferentes , mas a teimosia dos personagens são bastante semelhantes. A diferença é que Bentinho é Casmurro até o fim da vida, mas Leontes, diante da tragédia (antes tarde do que nunca) se arrepende ao vê o erro (sim, eu acho que a Capitu não traiu o Bentinho, era tudo coisa da cabeça dele). Será que Machado lia muito Shakespeare?
Confesso que me chateou o fato da cena da descoberta da verdadeira identidade de Perdita ser narrada por terceiros (a cena é narrada por três personagens "anônimos"). Acho que ver a cena interpretada pelos personagens propriamente envolvidos na trama seria emocionante. Mas, essa falta é suprida pela emoção da cena de "ressurreição" de Hermione, que, ao ver o arrependimento do marido e a ternura da filha perdida, se revela viva com um "truque de mágica" de Paulina. A cena, aliás, é linda.
Essa edição da editora Iluminuras contempla ainda três textos de apoio iniciais que situam o leitor previamente no contexto histórico da época em que a peça foi escrita, bem como das dificuldades de tradução de um texto e da importância de Shakespeare para a sociedade moderna. O texto ainda traz notas de rodapé que explicam especificamente algumas traduções e algumas limitações que a tradução impõe como, por exemplo, trocadilhos que na versão original traziam um toque de humor ao texto, mas que é impossível utilizar o mesmo mecanismo em Português. Isso deixa a leitura "mais rica".
Enfim, sou suspeita para falar de Shakespeare, pois amo sua obra de todo o coração, mas afirmo que é uma ótima peça e que valer muito (muito mesmo) a pena ler (ou assistir no teatro quando tiver oportunidade, por que não?)
¹ Não sei se é impressão minha, mas durante toda a primeira parte da peça, enquanto lia as falas de Leontes, só me lembrava de Bentinho de Dom Casmurro. As histórias são completamente diferentes , mas a teimosia dos personagens são bastante semelhantes. A diferença é que Bentinho é Casmurro até o fim da vida, mas Leontes, diante da tragédia (antes tarde do que nunca) se arrepende ao vê o erro (sim, eu acho que a Capitu não traiu o Bentinho, era tudo coisa da cabeça dele). Será que Machado lia muito Shakespeare?



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