O Lado Bom da Vida: Segundas Chances
Título: O Lado Bom da Vida | Autor: Matthew Quick | Tradutor: Alexandre Raposo | Editora: Intrínseca | Ano: 2013 | Nº de Páginas: 160 | Livro Físico | Nota:📖📖📖
De alguma maneira, a impressão literária
dessa semana dialoga com a da semana passada, com o livro Pollyanna, mas de uma forma contrastante. Enquanto Pollyanna nos mostra a melhor maneira de
usar o otimismo ao nosso favor, O Lado
Bom da Vida nos mostra como não o fazer. Porém, a mensagem passada pelo
livro é preciosa. Lembra-nos que, embora sejamos falhos, somos sempre merecedores
de segundas chances, e o mais importante, que somos os únicos responsáveis por
nos presentearmos com elas.
Pat Peoples, nosso protagonista, é um professor
de história, que está internado numa clínica psiquiátrica depois de um surto,
que cominou no fim do seu casamento com a também professora Nikki. Ele está na
casa dos 30 anos e não sabe muito bem quanto tempo e nem por que está “no lugar
ruim”. Tudo isso nós vamos descobrir junto com ele. E logo te conto que é um
processo doloroso de acompanhar.
Pat, na verdade, ainda acha que está
casado. Acredita piamente que ele e Nikki ainda estão juntos, que aquele
momento é só, como ele chama, “o tempo separados”. Pat acha que assim que recuperar
a saúde mental, Nikki vai voltar e eles serão felizes de novo ou, como vamos
descobrindo, serão finalmente felizes. Para Pat, qualquer pessoa que pense o
contrário dessa possibilidade está sendo pessimista, simplesmente não está
vendo “o lado bom da vida”.
Por falar nisso, Pat afirma o tempo inteiro
estar tentando ver e viver “o lado bom da vida”, mas todo esse papo, no fundo,
no fundo, é só uma desculpa para manter-se na zona de conforto. O otimismo de
Pat, diferentemente do de Pollyanna, enterra-o numa inércia tenebrosa, afunda-o
ainda mais na depressão (pelo menos é isso o que acredito que Pat tem, pois nada
nos é dito sobre isso no livro). Pat fantasia sua relação com Nikki o tempo
inteiro, construindo um castelo de mentiras, onde pode se proteger do
sofrimento, sem perceber que, na realidade, tais pensamentos o aprisionam e
prolongam sua dor.
É certo que a ideia do “tempo separados”
foi de alguma maneira importante para a recuperação do Pat, pois durante esse
tempo ele reconhece seus erros, reconhece que não foi um bom marido, que seus
problemas psicológicos são anteriores ao episódio que o levou ao surto. Pat é
agressivo, explosivo e incontrolável, e vai reconhecer isso durante esse
processo. E, ao pensar que vai recuperar seu casamento se por acaso se tornar uma
boa e nova pessoa, ele realmente acaba se tornando melhor e bom.
Em contrapartida, a ideia do “tempo
separados” não permite que ele veja que a ruína do seu casamento não foi
inteiramente sua culpa, que não foi, de maneira alguma, culpa de sua doença.
Ele põe Nikki em um altar e não consegue enxergar os defeitos da ex-esposa, as
coisas que ela também fez e que contribuíram para a realidade atual dos dois.
Ambos erraram e feio, e de certa forma o casamento estava destinado a dar
errado desde o início.
Pat precisa de um chacoalhão para acordar,
para sair da inércia que está sua vida, para finalmente se curar. E esse
chocoalhão será Tiffany. Certo que de uma maneira meio torta, mas é da Tiffany
que estamos falando, não é? Pat e Tiffany, sem nem perceber, salvarão um ao
outro. E a paixão que surge entre eles é mero detalhe, mero bônus. Acho que o
amor entre eles é muito maior que o amor romântico, esse amor sobre o qual
estamos acostumados a escutar. O sentimento entre esses dois é um amor de
reconhecimento, de empatia, de ver-se na dor do outro. E por isso ele é grande.
E embora a Tiffany seja o chocoalhão do
Pat, é o próprio Pat que se salva do sofrimento. A escolha é unicamente dele.
Pat, durante toda a narrativa, vai reprimir sua atração por Tiffany, vai
bloquear o reconhecimento do seu próprio eu naquela mulher estranha. Mas quando
decide finalmente encarar o sofrimento de frente, e lembrar-se de tudo o que
aconteceu, de quem ele era, de quem era Nikki, do que aconteceu para o levar ao
“lugar ruim”, é quando enfim se liberta, quando agarra sua segunda chance.
E esse é o lado bom da vida que realmente o
livro quer nos mostrar. Não é só viver “o lado bom da vida” ou ser positivo,
como Pat fala o tempo inteiro, na verdade, o lado bom da vida é a beleza do
recomeço, é sempre poder começar do zero de novo, é sempre dar-se segundas
chances.
E fica aqui minha sugestão de leitura. O Lado Bom da Vida é um livro curto,
de linguagem simples, verdade que às vezes um tanto repetitiva, mas gostoso de
ler. Recomendo!
P.S.:
Assisti ao filme faz bastante tempo e não me lembro de todos os detalhes. Mas
do pouco que lembro, a perspectiva sobre o Pat é bem diferente. Acho que o
filme o vitimiza demais, já o livro o torna mais humano. Em relação à Tiffany,
acho que o papel foi modificado para caber à Jennifer Lawrence. No livro, Tiffany,
apesar de importante para história, é mero personagem coadjuvante, enquanto no
filme, ela também é protagonista. Livro e filme são diferentes, mas acho que um
não sobressai ao outro, são igualmente bons.






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