Sonho de Uma Noite de Verão: Uma Ode ao Amor Não Correspondido
Título: Sonho de Uma Noite de Verão |Autor: William Shakespeare |Tradução e Adaptação: Walcyr Carrasco |Ilustração: Odilon Moraes |Editora: Global Editora |Ano: 2004 |Nº de Páginas: 80 |Livro Físico | Nota: 📖📖📖📖
Sonho
de Uma Noite de Verão é uma peça um tanto desafiadora para se
escrever uma resenha, pois são diversas histórias, que, de alguma maneira, se
entrelaçam. Então, já te peço licença, porque isso é apenas uma tentativa de
resumir a confusão que é essa obra. Bem, acompanhamos três histórias: a
primeira, e principal, é a dos amantes apaixonados Hérmia, Lisandro, Demétrio e
Helena; a segunda, é a de Oberon, Titânia e Puck, que são seres sagrados da
floresta; e, por fim, a terceira e última (e mais hilária também) é a história
dos artesãos que estão montando uma peça para apresentar no casamento de Teseu
e Hipólita, o qual é o ponto em comum das três narrativas.
Hérmia e Lisandro são perdidamente
apaixonados um pelo outro e, embora, o amante tenha tão bom nascimento quanto
Demétrio, o pai da moça, Egeu, insiste em casá-la com este, mesmo que todo
sentimento de Hérmia por Demétrio possa ser resumido apenas em desprezo. E,
para isso, Egeu vai apelar ao duque Teseu para o cumprimento das (absurdas)
leis atenienses. Demétrio, por sua vez, não liga para a indiferença de Hérmia e
tudo o que deseja é casar-se com ela, ainda que isso não a faça feliz. Já
Helena é obcecada por Demétrio e ele só a despreza. Sério, é vergonhoso o tanto
que a garota se humilha. Durante a leitura, eu só pensava “Helena, minha filha,
melhore!”, juro. E te falo, chega ao final da peça e Helena continua do mesmo
jeito. Helena precisa urgentemente ser empoderada!
A história dos artesãos atores e a dos seres
sagrados da floresta são as segundas a se entrelaçarem. Enquanto os atores
amadores ensaiam uma peça, que conta a história de Píramo e Tisbe,
-
de maneira sofrível, vale lembrar, e é justamente nisso que reside a graça da
história -, Oberon e Titânia discutem pelos domínios da floresta e por um tal
menino indiano. Mas, o problema entre eles, na verdade, é o ciúme que sentem de
Hipólita e Teseu. Para se vingar de Titânia, Oberon vai contar com a ajuda do
duende Puck. O traquino vai ter a missão de enfeitiçar Titânia para que ela se
apaixone pelo ser mais feio que existe na floresta, assim, ele também enfeitiça
Fundilho, um dos artesãos, o transformando em um ser com cabeça de burro e
corpo de gente, condenando a peça, de vez, ao fracasso. E condenando também a
reputação de Titânia ao fazê-la apaixonar-se por uma aberração.
Puck ainda receberá como missão de Oberon
enfeitiçar Demétrio para que ele se apaixone por Helena. É que o rei dos
duendes presencia a bela Helena humilhar-se para o rapaz e aquilo o incomoda
bastante a ponto de fazê-lo se meter na história. No entanto, ao receber as
ordens de enfeitiçar “um ateniense” para apaixonar-se pela donzela, Puck
confunde Lisandro com Demétrio, atrapalhando não só a fuga dos apaixonados
Hérmia e Lisandro, como também o seu amor. Para piorar, o duende traquino
também faz o próprio Demétrio apaixonar-se por Helena. E os dois rivais, que
antes brigavam pelo amor de Hérmia, passam a brigar pelo amor de Helena, que
interpreta tudo como uma grande brincadeira de mau gosto dos apaixonados e de
Hérmia para humilhá-la ainda mais.
E é nessa confusão que se desenrola a
história. Puck vai ter que concertar toda a trapalhada que causou, mas, como
ele fará isso, eu não vou te contar. Vais precisar ler a peça ou assistir-lhe,
se tiver oportunidade. E, por falar nisso, amaria assistir à encenação de Sonho de Uma Noite de Verão. Se já conseguimos
achar graça apenas lendo os diálogos, imagina eles sendo interpretados por
atores num tablado? Deve ser maravilhoso!
Podemos destacar ainda, em Sonho de Uma Noite de Verão, a crítica
que Shakespeare faz sobre a função da arte, especialmente o teatro, para a alta
sociedade através da metalinguagem. Ao representar atores através de artesãos
amadores, mostra como a arte era encarada, - e infelizmente ainda é -, apenas
como puro entretenimento. Pouco se
valoriza o trabalho criativo dos artistas e a função social da arte, que trata
de desvendar os mais profundos sentimentos humanos, além de oferecer outros
pontos de vista para o público, mudando assim a forma de pensar das pessoas e,
como conseqüência, sua realidade.
Outro tema bastante relevante no enredo são
os amores não correspondidos. Sabe aquele poema do Drummond? “Fulano amava
Sicrana, Sicrana amava Beltrano”, e assim vai? Sonho de Uma Noite de Verão conta mais ou menos isso. Demétrio e
Helena buscam amores não correspondidos, ao ponto de sacrificarem o “amor próprio”,
na verdade, a expressão mais adequada seria o “respeito a si mesmo”. E se nós
não nos respeitamos e valorizamos, quem vai fazê-lo? Só podemos cativar ao
outro, se tivermos respeito pelo o que somos. E esse tal encanto se dá de forma
natural. Se tem que forçar o sentimento, não é amor. Então, é melhor aceitar e
a vida segue.
Assim, fica aqui minha dica de leitura. Sonho de Uma Noite de Verão é um texto
leve, super engraçado e uma boa pedida para começar a ler Shakespeare, além de
permitir uma reflexão sobre os não-amores e sobre a valorização da arte e de
seus profissionais. Afinal, viva à arte!
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