Uma Vez Mais Com Ternura – Nora Roberts (Editora Harlequin)
Eu não queria
problematizar, mas...
... com esse livro não tem como.
Até pensei em me calar sobre ele, porque odeio falar mal de um livro. Todo escritor
é um vitorioso e mesmo de enredos fracos, a gente consegue tirar algum ponto
forte, algo positivo. No entanto, em Uma Vez Mais Com Ternura, só encontrei
absurdos. Não estou analisando qualidade literária, forma de escrita, nem nada
do tipo, afinal, nem tenho conhecimento para tanto, mas sim o enredo, a
história em si. Sou apenas uma leitora comum.
Era o meu primeiro Nora Roberts,
eu não esperava mais do que um romance água-com-açúcar, tipo Nicholas Sparks.
Não faz bem meu estilo, mas gosto de ler de tudo, experimentar de tudo. Os primeiros
capítulos eram tudo o que eu esperava, um enredo clichê, um drama infinito
envolvendo o casal protagonista.
Este casal é formado por dois
popstars no mundo da música, e tinham se relacionado cinco anos atrás e acabado
de uma forma muito repentina, sem qualquer oportunidade de conversa, de
colocar os “pingos nos is”. Então, depois desses cinco anos, esse carinha volta
para vida da mocinha - tão de repente quanto saiu. Mesmo com nada resolvido
entre eles, ele propõe a ela uma parceria para compor a trilha sonora de um
musical que seria a oportunidade da vida da carreira dela.
O primeiro encontro do casal já é
um pouco estranho. O cara é meio grosso, um pouco invasivo. Praticamente, a
força a se encontrar com ele. Mas até esse ponto tudo bem. Parece que faz parte
do fetiche que homens grossos e inacessíveis emocionalmente sejam personagens principais
nesse tipo de história. Depois ele se redime e fica tudo bem – mas, não é isso
o que acontece, tá? Os encontros que se seguem obedecem a esse mesmo padrão:
ele investindo fortemente em cima dela, ela fugindo como o diabo foge da cruz e
uma tensão sexual enorme.
Para dar continuidade a história,
ela vai aceitar a proposta da parceria para trilha sonora. Eles combinam de ir
para uma casa que ele tem no meio do nada, com um visual bonito para ajudar na
inspiração. Até então ok, não é? Eis, então, o que acontece no caminho de ida dentro do avião: ela, muito cansada por causa da turnê que tinha acabado de fazer, dorme profundamente. Ele tem a brilhante ideia de
dormir ao lado dela, mesmo sabendo que ela tem sérios problemas com sua
sexualidade. Quando ela acorda não dá outra, tem um ataque histérico,
porque se sente desrespeitada. Tudo bem, não era essa a intenção dele, mas se
ela se sentiu assim, cabia a ele apenas pedir desculpas e prometer que não
faria mais aquilo.
Mas você acha que é isso o que
acontece? Não, eis o que acontece:
- Até onde acha que vou suportar? – inquiriu
ele em tom áspero, com nuances irlandesas presentes em seu sotaque. A respiração
de Raven saía curta e superficial, enquanto permanecia paralisada sem
responder. – Não me atire seu séquito imaginário de amantes na cara ou
conhecerá um de verdade, quer queira ou não.”
Sim, ele a ameaça, que isso se não for uma ameaça, eu desaprendi a ler... E, ah, enquanto ele fala
essas palavras, está sobre ela, com a mão em sua garganta, a apertando. Bem, é de se
esperar que depois dessa, a mocinha, assim que o avião pousasse, saísse
correndo e desaparecesse das vistas de um louco como esse. Mas, você deve saber
que não, ela não faz isso. No lugar disso, ela chega à brilhante conclusão de
que foi ela mesma quem provocou aquela atitude nele. Ela é a única e inteira culpada
daquele comportamento. E, mais:
Quando Brand desapareceu no corredor, ela
permaneceu onde estava por um instante, recordando o último encontro deles, há
cinco anos.
Lembrava-se perfeitamente de cada palavra,
cada ofensa. E, naquela ocasião, também fora sua a maior parcela de culpa. Estavam
sós. Ele a desejava e ela o queria. Porém, tudo dera errado. Recordava a forma
como gritara com Brand, beirando a histeria. Ele se mostrara paciente até
perder a estribeira, mas não da forma como fizera momentos atrás. E, então,
tornou-se extremamente frio. Comparando as duas reações, Raven concluiu que o
preferia inflamado e violento a friamente desdenhoso.
Sim, é isso mesmo. Ela não só
acha que era ela a culpada daquela reação violenta, como também preferia aquela
reação a uma frieza da parte dele.
Enfim, seguindo a história, eles,
depois disso tudo, vão para essa casa no meio do nada e começam a compor a
bendita trilha sonora. No meio disso, ele dá mais um ataque - porque ele é um
animal que simplesmente não consegue controlar seus instintos. Nesta mesma
noite, ela tem um pesadelo e acorda assustada, acaba confessando a ele
todos os seus traumas e medos. Aí então, eles têm uma alucinante noite de amor,
na primeira vez deles e na primeira vez dela (clichê!). A partir de então, segue
descrições apimentadas de todas as relações sexuais dos dois, na cama, no sofá,
no chão. Acredito que seja algo do tipo Cinquenta Tons de Cinzas, mas sem o
sadomasoquismo.
Então, do nada, eles brigam. Ela
vai embora por causa de um problema na família, sem ter tempo de avisar a ele o
porquê. Passam uns dias longe um do outro. Daí, se encontram. Ele simplesmente
a arrasta, a puxando pelo braço, de um restaurante até um quarto de hotel. Eles
têm mais uma briga feia. Mas, logo se entendem - porque a tensão sexual entre
eles é maior do que qualquer coisa. O livro acaba em mais uma noite quente de
amor entre os dois. Sim, o livro acaba aí.
A primeira edição deste livro
saiu em 1983. Não sei se, depois de tantos anos, as histórias da Nora Roberts
ficaram melhores (se ficaram, ela deveria proibir novas edições desse livro). É
muito triste romantizar algo desse tipo. A relação entre esse casal não é amor.
É abusiva. Se você leu esta história e achou que ela era uma história de amor
linda, acho que você deveria rever seus conceitos. Ler de novo o livro com
novos olhos.
O pior disso tudo é que é um
livro voltado para um público feminino, e escrito por uma mulher... Reiterando
o equívoco de romantizar relações abusivas, em que a violência tem grande
espaço. Muitas mulheres sofrem todos os dias em relações assim. E continuam
sofrendo por acreditar que aquilo é amor, que qualquer relação é daquele jeito
mesmo. Amor é carinho, é respeito, é cuidado. Violência, seja ela física ou
verbal, não deve caber em nenhum tipo de relação. Por menos livros assim, por favor.



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