Dom Casmurro: Paranoia ou Traição?
Já perdi as contas de quantas vezes reli esse livro, que, aliás, é um dos meus “preferidos da vida”. A primeira vez que o li foi por influência total de um professor do ensino médio, eu devia ter 14 ou 15 anos. Professor Antônio falava de uma forma tão apaixonada sobre literatura, que era quase impossível não ser contaminada pelo “bichinho” da curiosidade. Lembro que ele era especialmente encantado por Machado de Assis e, por causa disso, acabei lendo todos os livros que eu tinha dele aqui em casa e também os que tinham lá na escola. E não foi diferente com Dom Casmurro.
Dom Casmurro é
aquele tipo de livro que a cada vez que você o reler, você consegue alcançar
uma nova perspectiva sobre ele. É um livro “vivo” que mesmo que se passem séculos e séculos, ele ainda assim vai continuar fazendo sentido. Isso acontece
porque ele fala de algo intrínseco à alma humana, fala de sentimentos que todos
nós sentimos ou sentiremos algum dia, mesmo que, às vezes, nós não nos
orgulhemos tanto assim deles. E o mais fantástico de Dom Casmurro é que Machado
de Assis não nos deixa nenhuma brecha para certezas. Com as mesmas palavras,
Capitu pode ser culpada ou inocente. E tal sentença só depende do leitor, da
“bagagem” que ele carrega na vida.
É certo que desde
a sua primeira publicação, no ano de 1900, até a década de 1960, quando uma
nova interpretação foi dada pela americana Helen Cardwell, Capitu era
definitivamente culpada. Bentinho era, sem sombra de dúvidas, a vítima da
história, mesmo ele sendo o único a ter voz na narrativa. O machismo que
vigorava na sociedade, por décadas a fio, impediu que a maioria das pessoas
conseguisse identificar a genialidade machadiana. O tempo inteiro o próprio
Bentinho, enquanto nos conta a história, desdiz o que, ao que parece, ele tem
certeza: a traição de Capitu e Escobar.
Eu,
particularmente, sou da opinião de que Capitu era inocente. E logo deixo
avisado que esse texto é praticamente uma defesa dela. Desde a primeira vez que
o li, Bentinho não conseguiu me convencer de que ele era a vítima. Confesso que
pareço com Bentinho muito mais do que gostaria. Tenho, infelizmente, um quê de
Casmurro e consigo identificar um ciumento de longe (olha a minha
pretensão!...). Desconfiado por natureza, o ciúme é presença constante no
coração e na mente do Casmurro. E todo mundo sabe que quando o ciúme entra numa
relação, o amor sai pela outra porta.
Os motivos pelos quais Bentinho condena Capitu
são, no mínimo, duvidosos. O momento no qual ele tem certeza da culpa da sua
esposa é durante o enterro de Escobar. Capitu chora e não podia ser diferente.
Afinal, Escobar é também um amigo para ela, além de ser marido de Sancha, sua
melhor amiga. Sem contar com habilidade humana, sobretudo nas horas de dor, de
se colocar no lugar do outro. Quem sabe Capitu, naquele momento, não se
enxergasse em Sancha ao se imaginar perdendo Bentinho?
“A confusão era geral. No meio dela,
Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente
fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as
dela. Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na
sala.” (p. 297)
Outro fato em que
se fundamenta a certeza de Bentinho são os olhos de Ezequiel, que a princípio,
era tido apenas como um bom imitador. O menino era bom em imitar, imitava José
Dias e a prima Justina, mas era incomparável na imitação a Escobar. O pai até
então nada de estranho achava, mas depois do episódio do enterro, o Casmurro
começa enxergar Escobar no olhar e nos trejeitos do pequeno. Betinho
simplesmente não suporta a visão do filho, ao ponto de até tentar oferecer-lhe
veneno.
Mas, como já
disse, nosso narrador duvida toda hora da sua certeza. Por exemplo, ele põe em
dúvida se aquela semelhança entre Ezequiel e Escobar é mesmo fruto da traição
de Capitu ou apenas coincidências estranhas da vida. Quando ainda está no
seminário, Bentinho vai visitar Capitu na casa de Sancha, que na ocasião estava
doente. Num quadro na parede, está uma pintura da falecida mãe da enferma.
Bentinho repara como é surpreendente a semelhança entre a defunta e Capitu,
mesmo elas não tendo parentesco algum. Mais tarde, alguns capítulos depois,
Bentinho evoca essa mesma constatação para pôr a prova a sua certeza.
“Gurgel, voltando-se para a parede da
sala, onde pendia um retrato de moça, perguntou-me se Capitu era parecida com o
retrato. (...) Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as
pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. Também achava que as ações eram
semelhantes, a testa principalmente e os olhos. (...) Na vida há dessas
semelhanças assim esquisitas.” (p. 210 e 211)
“No intervalo, evocara as palavras do
finado Gurgel, quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher, parecido com
Capitu. Hás de lembrar-te delas; se não, relê o capítulo, cujo número não ponho
aqui, por não me lembrar qual seja, mas não fica longe. Reduzem-se a dizer que
há tais semelhanças inexplicáveis...” (p. 327 e 328)
Vale ainda
ressaltar que é a própria Capitu que constata a semelhança entre Ezequiel e
Escobar. E ela mesma comenta isso com o marido. Assim, fiquei imaginando: a
troco de que ela incutiria uma dúvida na cabeça do marido caso fosse realmente
culpada? Sobretudo sendo Bentinho ciumento do jeito que era... Quem não se
lembra do episódio dos braços de fora? Se não o lembra, vide o capítulo 105.
Bentinho é paranóico!
Bem, eu até
poderia escrever outro livro, explicando os motivos por que a Capitu é
inocente. E um outro alguém poderia escrever outro, explicando por que ela é
culpada. E usando os mesmos fatos para isto! É isso que a genialidade de
Machado de Assis faz... Mas acho que vou parar por aqui. Acho que meu papel
está feito. Espero ter lhe despertado a vontade de ler a obra, se é que ainda
não a leu. E também espero ter lhe convencido que Capitu era inocente, mesmo
que ela tivesse olhos oblíquos de cigana, e culpado mesmo nessa história toda
era o ciúme de Bentinho.
Então, e para
você? Foi traição ou só paranoia?
Também me ajudaram a escrever esse texto:
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