Um Gato de Rua Chamado Bob e o Poder de Transformação do Amor



FICHA TÉCNICA                                


Título: Um Gato de Rua Chamado Bob | Autor: James Bowen | Tradutor: Ronaldo Luiz da Silva | Editora: Novo Conceito | Ano: 2013 | Nº de Páginas: 237 | Livro Físico Nota: 📖📖📖📖📖





Para uma gateira de carteirinha como eu, falar que Um Gato de Rua Chamado Bob é um livro maravilhoso chega a ser até suspeito. São cinco gatos aqui em casa (quatro oficiais e um para adoção) e minha “experiência felina”, apesar de ainda curta, é bastante vasta. Sabe aquela frase de “cada canto tem um gato”? Pois é, é bem isso aqui em casa. E, sinceramente, não mais imagino outra vida pra gente. Animais, de uma forma geral, têm o poder de transformar (pra melhor!) nossas vidas e é sobre esse poder de transformação que trata este livro.

James resume isso logo no trecho inicial do livro:

“Deram-me um monte de oportunidades, às vezes a cada dia. Por um longo tempo, falhei em não agarrar nenhuma delas, mas depois, no início da primavera de 2007, isso finalmente começou a mudar. Foi quando fiz amizade com Bob. Olhando para trás, algo me diz que aquela pode ter sido a segunda chance dele também.” (p. 9)

Um Gato de Rua Chamado Bob é essencialmente sobre segundas chances: a segunda chance do Bob e, sobretudo, uma das muitas do James.

Quando encontrou Bob em um dos andares do seu prédio, James não imaginava o quanto sua vida mudaria por causa daquele gato laranja. Naquela ocasião, Bob não estava em um de seus melhores momentos. Apresentava um ferimento, que já estava infeccionando. Se algo não fosse feito com urgência, Bob não tinha muitas chances. Então, prontamente James se comprometeu com a causa de salvar Bob daquela situação, sem ao menos desconfiar que quem iria ser salvo na verdade era ele mesmo.

James já tinha vivido nas ruas de Londres e havia passado por muitos perrengues até então, algo que ele e Bob tinham em comum e que, talvez, tenha sido um fato determinante para que eles se tornassem tão inseparáveis. Eles se reconheciam um no outro. Para tratar do Bob, James o leva em uma espécie de “centro veterinário comunitário” e, com muito carinho e cuidado, o laranjinha se recupera bem rápido.  A princípio, a ideia de James era tratar do gato e o deixar seguir seu destino, mas essa não foi a vontade do Bob. O laranjinha sabia que o James precisava de ajuda, simplesmente não podia deixá-lo.

 Naquele tempo, James era um viciado em heroína em recuperação. Para se sustentar, tocava guitarra em frente ao metrô de Covent Garden, no centro de Londres. Os trocados que conseguia mal dava para ele próprio e, agora, ele tinha uma outra boca para sustentar. Mas o que James não esperava era que Bob o ajudaria nessa missão. Certo dia, Bob decide ir atrás do James enquanto ele vai trabalhar. Por mais incrível que pareça, Bob pega ônibus e anda pelo centro borbulhante de Londres como se essa fosse a coisa mais comum do mundo (se você não acredita nisso, assiste esse vídeo aqui).

Quando chegam ao local em que o James costuma tocar, logo o Bob vira sensação. Afinal, não é todo dia que a gente vê um homem cabeludo com um gato laranja lhe fazendo companhia. Eles são o sucesso do lugar e os rendimentos do James duplicam, triplicam de valor. Entretanto, o dinheiro não foi a coisa mais importante que o Bob “deu” ao James. Na verdade, isso era insignificante para James. O que mais de valioso o guitarrista ganhou do seu novo amigo foi a devolução de sua identidade. James, por ter vivido nas ruas e viver das ruas, havia virado uma espécie de ninguém. 

“Não é fácil quando você está trabalhando nas ruas. As pessoas não querem lhe dar uma chance. Antes de eu ter Bob, se tentasse me aproximar das pessoas nos bares com minha guitarra no peito, elas diriam ‘não, lamento’ antes mesmo que eu tivesse a oportunidade de dizer olá. Poderia estar simplesmente perguntando as horas. Mas elas me diziam: ‘Estou sem trocado, desculpe’, antes que eu abrisse a boca. Isso acontecia o tempo todo. Elas nem sequer me davam a oportunidade.” (p. 83)

Com Bob, as pessoas o olham novamente. Bob faz James “ser uma pessoa” outra vez. Vê só esse trecho que emocionante:

“Ver-me com meu gato suavizou-me aos olhos das pessoas. Ele me humanizou. Especialmente depois de eu ter sido tão desumanizado. De certa forma, ele estava devolvendo minha identidade. Eu tinha sido uma não pessoa; e estava me tornando uma pessoa novamente.” (p. 84)

E assim, de emoção em emoção, vamos vendo o dia-a-dia desses dois. Os contratempos, as alegrias, as mudanças. Não tem como não se apaixonar por essa história. Mas, se me pedissem para eleger a passagem mais tocante do livro, com certeza, eu diria que foi o momento da abstinência do James. Ele já não usava heroína há meses, mas o James ainda tomava uma forte medicação para suportar a privação da droga. Conviver com Bob o fez tomar a mais importante das decisões de sua vida: ele queria ficar completamente limpo. Entretanto, a fase da abstinência é tão dura quanto decisiva. James precisa suportar três dias de alucinações e de sintomas psicossomáticos para evoluir no tratamento. Mas, agora, o James tinha o Bob e o laranjinha não o deixa na mão. James supera tudo com o auxílio do Bob.

“Era como se ele soubesse o que eu estava sentindo. Algumas vezes, enquanto eu cochilava, ele se aproximava de mim e colocava o rosto perto do meu, como se dissesse: ‘Tudo bem aí, companheiro? Estou aqui se precisar de mim’. Em outros momentos, ele simplesmente sentava-se comigo, ronronando, esfregando a cauda em mim e lambendo meu rosto de vez em quando. Enquanto eu deslizava para dentro e para fora de um universo estranho, alucinatório, ele era a minha âncora na realidade.”

No entanto, o que eu queria destacar mesmo do livro é a responsabilidade que o James tem com o Bob. Uma responsabilidade que não vejo em pessoas “normais” por aí. Uma das primeiras medidas do James é castrar o laranjinha, e isto é um verdadeiro ato de amor. Pois, animais castrados não reproduzem mais animais que serão abandonados nas ruas. E além disso, a castração aumenta a expectativa e a qualidade de vida dos bichinhos. E fica aqui meu apelo: se você decidir adotar um pet, tenha como prioridade castrá-lo. Desta forma, você evita o abandono e, sobretudo, o sofrimento de muitos seres inocentes. E dê preferência a resgatar animais de abrigos, ONG’s ou até mesmo das ruas. Afinal, amigo a gente não compra, não é?
Se eu recomendo o livro? Só recomendo! E você? O que achou?

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