Mulherzinhas: Um Grito Feminino de Liberdade.
Título: Mulherzinhas | Autor: Louise May Alcott | Editora: Martin Claret | Ano: 2013 | Nº de Páginas: 262 | Livro Físico | Nota: 📖📖📖📖
A primeira publicação de Mulherzinhas foi em 1868, há exatos 150
anos. Desde então, muito coisa mudou, sobretudo o espaço ocupado pela mulher na
sociedade (graças a Deus!). Mas podemos analisar a
obra de Louise May Alcott muito além dos contrastes sociais que ela revela. Mulherzinhas é tanto uma história de
autoconhecimento e busca incessante pelo aperfeiçoamento do caráter, como
também uma lição de como o amor e a paciência podem abrandar as diferenças e
fazer delas algo construtivo para a convivência.
A obra é classificada como
literatura infantojuvenil e depois que descobri isso, tudo começou a fazer
sentido no texto, pois a pureza das personagens é algo marcante. O livro nos
conta a história das quatro irmãs March: Meg, Jo, Beth e Amy, que têm entre 12
e 17 anos. Acompanhamos um ano na vida dessas meninas, que, digamos, não é um
dos melhores. É que o Sr. March, o patriarca da família, está em campanha,
lutando na guerra da Secessão (o romance se passa nos EUA, tá?).
E, além disso, a família, que antes vivia em uma situação financeira abastada,
agora passa por dificuldades.
A crise financeira da
família é “provocada” pela bondade tão presente nesse lar. Os March não medem
esforços para ajudar a quem precisa e tentam de todas as formas passar esses
valores às filhas, que corrigem seus desvios de caráter através da caridade.
Tanto é que a primeira cena da história é as meninas abrindo mão de uma ceia de
natal farta em prol de uma família extremamente pobre. E tirando as muitas
passagens que relacionam características como bondade e paciência apenas à
realidade feminina, o livro oferece um bom número de conselhos para melhorarmos
diante das frustrações e provações da vida. A paciência, a abnegação e a
caridade são base na educação das March.
Amy é a filha caçula e tem
talento para desenho e para escultura. Seu principal defeito é ser egoísta e
orgulhosa, não conseguindo se doar tão facilmente nem perdoar quem a ofende (tão
comum a todos nós, não é?). Amy vai passar por inúmeras provações
até entender a necessidade de mudar a si mesma e de perdoar aos outros para que
a vida fique em paz, para que se possa prestar atenção às coisas que mais
importam: as pessoas que amamos. Amy encontrará isso na fé, na oração e na
meditação, que aprenderá com uma senhora francesa que trabalha para sua tia
March.
Beth, a segunda irmã mais
nova, é extremamente talentosa e apaixonada pela música. É, das quatro, a que
menos possui defeitos morais. Aliás, posso afirmar que o defeito da Beth é
muito mais uma limitação do que propriamente um defeito. É que Beth é
excessivamente tímida. A timidez é tamanha que chega quase a ser uma fobia. Mas,
a música e o amor da família e dos amigos Laurence a ajudará a superar os
obstáculos que uma personalidade tímida e introspectiva impõe em um mundo para
extrovertidos.
Meg, a mais velha das
irmãs, é doce e bela. Assim como a Jo, trabalha fora para ajudar na
renda familiar como preceptora de uma família rica. Meg é a que mais sente
falta da antiga condição financeira da família. Dona de uma grande vaidade, ela
vai ter que lutar contra a ambição e a necessidade de manter as aparências,
resistindo às tentações da vida da alta sociedade.
Jo, a segunda mais velha,
é a nossa protagonista e de longe um dos personagens mais interessantes da
trama. É enérgica, impetuosa e corajosa. Dada as artes de escrever, Jo sonha em
sustentar a si própria e à família, em pleno século XIX, com seu talento. Seu
principal defeito é não conseguir controlar a raiva e ser impulsiva. Mas, com a
ajuda e os conselhos da mãe, Jo trabalhará em seu aperfeiçoamento moral. E
usará a impulsividade para realizar boas e corajosas ações (é de
fazer cair o queixo!). Mas, não deixei a Jo por último à toa, há
muito o que falar dessa garota!
Mesmo sendo considerado um
“romance de formação” voltado para meninas do século XIX, ou seja, com o
intuito de ensinar “meninas a serem meninas”, Mulherzinhas tem em Jo um grito de liberdade. Jo afirma o tempo
inteiro querer ser um garoto, e embora toda resenha que vi afirme existir
traços de transexualidade nela, eu discordo disso e vou te explicar
por quê. Sim, Jo gosta de coisas
geralmente relacionadas ao universo masculino, como os “esportes, trabalhos e
maneiras de rapaz”, em suas próprias palavras,
mas isso não significa que ela é exatamente um garoto. Dizer isso é continuar
tentando encaixá-la em caixas azuis ou rosas. Acredito (disse acredito, pois pouco sei do assunto) que transexualidade vai muito além de aptidões a certos gosto que a sociedade classifica como femininos ou masculinos, é sobre como você se sente em relação ao seu próprio corpo e esse não parece ser o caso da Jo.
Ela, na verdade, é uma moça inconformada com o espaço que a mulher possuía na sociedade. Jo é expansiva, corajosa e aventureira e isso não cabe a uma mulher em pleno século XIX (às vezes nem no século XXI, não é?). Ficar nas sombras de um homem é algo fora de cogitação para essa menina. Jo se sente frustrada com o papel que lhe resta e não propriamente com seu corpo ou sua sexualidade, que durante toda a narrativa, não parece ainda nem ter sido despertada. Jo é na realidade feminista, mesmo que tal termo ainda não fosse tão disseminado na época. Ela quer ser independente, livre e respeitada, não por se encaixar em padrões, mas por seus talentos e capacidade. Ela é realmente inspiradora.
Mas, quero ainda chamar a atenção para uma outra coisa: a necessidade ainda presente de rotular mulheres. Se antes Jo era a inadequada, hoje Meg o seria. Meg que se torna devotada ao Sr. Brooke por apaixonar-se por ele, hoje seria considera submissa (nas palavras de Jo). Mas, que mal há em devotar-se ao lar e a educação de filhos? Menosprezar mulheres que optaram por esse estilo de vida é continuar afirmando que trabalhos geralmente exercidos por mulheres são de baixa importância. Afinal, babás e empregadas domésticas não merecem respeito? Então, por que mães que se dedicam aos filhos e a casa também não? Será preciso homens ocupar tais espaços para que tais tarefas sejam consideradas relevantes? Vamos repensar isso! E lembrando, ser dedicada e ser submissa são duas coisas completamente diferentes.
Ela, na verdade, é uma moça inconformada com o espaço que a mulher possuía na sociedade. Jo é expansiva, corajosa e aventureira e isso não cabe a uma mulher em pleno século XIX (às vezes nem no século XXI, não é?). Ficar nas sombras de um homem é algo fora de cogitação para essa menina. Jo se sente frustrada com o papel que lhe resta e não propriamente com seu corpo ou sua sexualidade, que durante toda a narrativa, não parece ainda nem ter sido despertada. Jo é na realidade feminista, mesmo que tal termo ainda não fosse tão disseminado na época. Ela quer ser independente, livre e respeitada, não por se encaixar em padrões, mas por seus talentos e capacidade. Ela é realmente inspiradora.
Mas, quero ainda chamar a atenção para uma outra coisa: a necessidade ainda presente de rotular mulheres. Se antes Jo era a inadequada, hoje Meg o seria. Meg que se torna devotada ao Sr. Brooke por apaixonar-se por ele, hoje seria considera submissa (nas palavras de Jo). Mas, que mal há em devotar-se ao lar e a educação de filhos? Menosprezar mulheres que optaram por esse estilo de vida é continuar afirmando que trabalhos geralmente exercidos por mulheres são de baixa importância. Afinal, babás e empregadas domésticas não merecem respeito? Então, por que mães que se dedicam aos filhos e a casa também não? Será preciso homens ocupar tais espaços para que tais tarefas sejam consideradas relevantes? Vamos repensar isso! E lembrando, ser dedicada e ser submissa são duas coisas completamente diferentes.
Bem, esse texto já está
extenso, e em tempos de redes sociais, te acho um vencedor em ter chegado até
aqui, mas eu não poderia acabá-lo sem antes falar sobre a Sra. March, a
matriarca da família. Ela é simplesmente incrível! É a mãe que eu gostaria de
ser um dia para os possíveis e futuros filhos que terei. Ela é compreensiva sem,
no entanto, ser permissiva. Divide seus anseios e confessa seus próprios
desvios de caráter para ajudar e educar suas filhas. Por isso, ela tem meninas
tão especiais.
E, assim, termino esse texto
e peço que ao ler Mulherzinhas não
fiquem só no pejorativo que esse diminutivo parece transparecer. Afinal, ser “mulherzinha”
é realmente espetacular! Além do mais, Mulherzinhas
é ousado até o ponto em que se era permitido ser no século XIX, Jo é a
prova viva disso, além de nos oferecer uma perspectiva
positiva sobre como somos como humanidade, considerando que defeitos morais
podem até existir, mas que são passíveis de correção se ajudarmos uns aos
outros nessa empreitada que é a vida.Me ajudaram a construir esse texto:
Claire Scorzi: Mulherzinhas
VevsValadares: Little Women
Observador: Mulherzinhas, o livro juvenil que deu poder às mulheres



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