A Metamorfose e a Indiferença que Choca






Título: A Metamorfose |Autor: Franz Kafka |Tradutor: Modesto Carone |Editora: Companhia das Letras |Ano: 2003 |Nº de Páginas: 96 |Livro FísicoNota: 📖📖📖📖📖







A Metamorfose é um daqueles livros que causam um assustador vazio no peito. Kafka escancara o pior lado do ser humano de maneira crua, objetiva, sem nos poupar de nenhum detalhe.  A indiferença pelo sofrimento do outro é presente em toda a narrativa, desde o tom do narrador até a descrição dos sentimentos das personagens. A Metamorfose mistura realidade com absurdo. É terror contado com uma entonação de quem conta uma história corriqueira, cheia de descaso.
A novela já se inicia de maneira nada convencional. Enquanto a maioria dos autores espera pelas páginas finais para atingir o clímax da história, Kafka opta por começar por ele.

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” (p. 13)

Bem, depois de ler esse início, o leitor, além de não conseguir largar o livro até chegar à última página, já é capaz de ter uma ideia de que o livro que tem em mãos não é um livro qualquer. Kafka, como diz Isabella Lubrano em seu vídeo-resenha no canal Ler Antes de Morrer, é um remédio amargo, que se pudéssemos não tomaríamos, mas que nos é necessário. A Metamorfose nos deixa claro o quanto somos capazes de nos mostrarmos indiferentes ao sofrimento, mesmo que ele seja nosso. Nos denuncia o quanto vivemos anestesiados pela rotina e o quanto as preocupações com as quais nos ocupamos não fazem sentido.
Gregor transforma-se em um inseto assustador, mas não é  isso o que mais choca em A Metamorfose. Após o abalo inicial, todas as personagens, inclusive o próprio Gregor, vivenciam a situação com indiferença. Não existe preocupação com o porquê de Gregor ter se metamorfoseado ou como fazê-lo voltar ao normal. Os pensamentos das  personagens são voltados para como vai se dar o sustento da casa, já que Gregor é único responsável por ele. O pai e a mãe já não são mais fortes quanto antes e a irmã, além de ser muito jovem, tem talento para música e trabalhar acabaria com qualquer chance de seguir adiante na carreira.
Por falar na família de Gregor, cada membro dela reage de uma maneira diferente, no entanto, todos acabam por sentir indiferença pelo metamorfoseado. O pai nega a existência de Gregor naquele ser, reage com ira, mas não pela monstruosidade do inseto e sim por que aquele estado significa que ele terá que voltar a garantir o sustento da família, algo que ele imaginava que jamais precisaria voltar a fazer. A mãe reage com horror, não consegue encarar a sorte que lhe alcança, preferindo ignorar a situação e deixar tudo nas mãos da filha mais nova.
Já a irmã de Gregor é a única que reage com empatia diante do fato. Com coragem, enfrenta o medo e consegue enxergar o irmão naquele monstruoso animal, tentando alimentá-lo e preocupando-se com seu bem estar, mas isso não dura muito. Logo ela se ocupa das preocupações do dia a dia, afinal ela agora precisa trabalhar e seu castelo de sonhos se foi junto com a integridade do irmão. A indiferença também a toma.
Gregor se sente culpado e frustrado por se encontrar naquele estado. Ele estava prestes a pagar a dívida de seu pai e planejava pagar um conservatório para a irmã. Gregor pensa o tempo inteiro no seu emprego, que de maneira nenhuma lhe preenche os anseios, mas o medo de perdê-lo é maior do que tudo. Garantir o conforto (não, o sustento) da família é mais importante do que a vida fazer sentido. O quanto não pensamos assim mesmo um século depois? Só temos valor se produzirmos, se formos “úteis” para sociedade. Mas será mesmo esse o valor dos seres humanos? Uma espécie de máquina que produz dinheiro, o famoso progresso?
Assim como Tati Feltrin no seu vídeo-resenha no canal TLT, ao ler A Metamorfose, eu só conseguia enxergar em Gregor alguém que adoece e se torna um “peso” dentro da família, até o ponto em que as pessoas começam a pensar se não seria melhor que ele morresse e acabasse com todo o sofrimento de uma vez. Gregor vira uma “não-pessoa”, mas não por causa da doença, e sim por que ele já não é mais útil para como a sociedade funciona. E isso é o que mais aflige na narrativa: a lembrança de que não se pode fraquejar, pois ainda que digamos sermos seres civilizados, o ser humano ainda age com selvageria ao se relacionar, esquecendo que a palavra humanidade tem um significado maior do que apenas designar a nossa espécie.
Portanto, a leitura de A Metamorfose nos deixa, assim, completamente sem ar, com um vazio aflitivo no peito. Nos faz nos questionarmos sobre como vivemos e sobre a real importância ao que damos valor. E, por isso, ela é essencial. Não minto, ler A Metamorfose é desagradável para a alma, mas te garanto que é necessário. Vai te fazer enxergar tua humanidade e te tocar, te fazendo, talvez, mudar as tuas prioridades e tua forma de reagir diante da vida. A Metamorfose é um daqueles livros que você precisa ler!

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