Hamlet: um dramalhão daqueles..., mas cheio de honestidade!





Título: Hamlet |Autor: William Shakespeare |Tradutor: José Antônio de Freitas |Editora: Martin Claret |Ano: 2010 |Nº de Páginas: 200 |Livro FísicoNota: 📖📖📖📖📖 







Hamlet, talvez, seja a peça mais icônica de Shakespeare, se não, é a com os “quotes” mais citados de todos os tempos. Afinal, quem nunca ouviu um “ser ou não ser, eis a questão?” ou um “eu podia estar encerrado numa casca de noz e considerar-me rei do espaço infinito”? Hamlet é universal, aliás, Shakespeare é universal. De maneira original, ele traduz a alma humana em palavras, misturando em um só enredo questões políticas e existenciais, isso sem deixar a corda pender para um único lado. E, em Hamlet, isso não é diferente.
A história se passa na Dinamarca, sendo Hamlet seu príncipe. O nobre, que possui uma alma melancólica, acaba de perder o pai de forma misteriosa. E, além do luto, sofre com o repentino casamento de sua mãe com seu tio Cláudio, irmão de seu pai, o qual lhe tomou o trono ilegitimamente. No alto de sua dor e revolta, Hamlet é alertado, por seu amigo Horácio, de que o espectro do seu falecido pai anda vagando pelo reino. Sem demora, o jovem príncipe vai ao encontro do fantasma e descobre que o pai foi envenenado pelo próprio irmão. Assim, Hamlet jura vingança ao tio e é desse ponto que se desenrola a história.
Hamlet é um personagem e tanto. Creio que é um dos mais conscientes sobre si mesmo que já tive o prazer de conhecer. Como fala Karnal em sua palestra no programa Café Filosófico, Hamlet é pioneiro em inaugurar o homem moderno, que é solitário e tem consciência de que o é. Mas, diferentemente dos outros, o príncipe não faz questão de esconder tal fato nem de si, nem dos outros. O discurso do nobre é um manifesto contra a “cultura da aparência”, é uma lembrança de que se não formos fiéis a nós mesmos, não o seremos a ninguém.
Hamlet, apesar de ter uma grande sensibilidade sobre o mundo seu ao redor, de maneira alguma é passional, ele não age por impulso. Pelo contrário, é um personagem extremamente racional. Por exemplo, para desmascarar o tio e ter certeza de que Cláudio é o assassino de seu pai, ele não o vai confrontar diretamente, mas sim prepara a apresentação de uma peça que aborda a mesma situação, aliás, coisa que parece corriqueira na obra de Shakespeare. A metalinguagem é algo que o dramaturgo gostava de usar em suas obras: teatro dentro de teatro.
Outra coisa que atesta a racionalidade da personagem é o não-centrismo de sua vida em torno de seu interesse amoroso, Ofélia. Hamlet ama verdadeiramente a moça e atesta isso em sua luta com Laertes. Mas, Ofélia não é a parte mais importante da sua vida. O príncipe não pestaneja em matar o pai da moça, tampouco sente culpa ao saber que ela havia supostamente se suicidado por causa da negativa de seu amor e do assassinato do pai. Hamlet é extremamente centrado no eu, a consciência sobre si e a seus valores é mais importante do que qualquer outra coisa.
“Eu amava Ofélia. Quarenta mil irmãos com toda a quantidade do seu amor não eram capazes de perfazer a minha soma.” (p. 171)
Sobre a ciência de si mesmo do nobre, podemos ainda ressaltar que Hamlet finge-se de louco para poder agir com sua plena consciência. Somente ao “se fazer maluco”, o príncipe pode falar honestamente o que pensa e fazer o que realmente sente vontade, mais uma vez criticando o viver de aparências, de que tanto fazemos uso na sociedade. Shakespeare nos mostra que o comum é que, na verdade, é o desajustado. A sociedade é doente e te obriga também a sê-lo.
Enfim, Hamlet é uma peça shakespearianas daquelas, com tragédia anunciada logo no primeiro ato. Mas, que tem muito a falar, sobretudo a este mundo moderno em que as redes sociais se tornam um espetáculo de aparências, mesmo tendo sido escrita há mais de quatro séculos. Acredito que nunca se teve, na história da humanidade, tanta consciência sobre a solidão do eu e nunca se tentou fugir tanto disso. Confesso ainda que a leitura foi, para mim, um desafio e tanto, já que a linguagem é bastante rebuscada, ainda que não tenha sido o meu primeiro contato com um texto original do dramaturgo. Mas garanto a você que vale a pena o desafio. Hamlet é um daqueles livros para se fazer releituras anuais, pois desconfio que, para cada nova fase da vida, a história do príncipe melancólico e vingativo, mas cheio de consciência sobre si mesmo, ganha um novo significado.

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