Carcereiros: o peso do cárcere







Título: Carcereiros | Autor: Drauzio Varella | Editora: Companhia das Letras | Ano: 2012 | Nº de Páginas: 232 | Livro Digital Nota: 📖📖📖📖📖




Depois de ler Estação Carandiru, é impossível não passar para os outros volumes da trilogia. A escrita do Drauzio Varella nos prende e nos envolve de tal maneira que é improvável não querer mais. Muito mais do que um médico competente, Drauzio é mesmo um exímio escritor e creio que seu bom desempenho venha de sua empatia. Acho que escrever, pelo menos de um jeito que toque o outro como só os autores mais brilhantes conseguem fazer, exige do escritor uma empatia e um reconhecimento do outro acima da média. E Drauzio tem isso. 
Apesar de versar sobre o mesmo assunto de Estação Carandiru, a perspectiva de Carcereiros muda. Drauzio, nesse segundo volume, nos conta sobre a rotina dos profissionais do sistema carcerário brasileiro. Das dificuldades que enfrentam, da solidão social que impõem a si mesmos, da corrupção a que muitos são levados e, como ninguém é de ferro, o livro também traz uma história engraçada aqui e outra ali, além das histórias inspiradoras, é claro. 
Bem mais do que em Estação Carandiru, vejo muito do Drauzio em Carcereiros. O narrador do primeiro volume, ainda que humano o bastante, fica quase sempre olhando aquilo tudo de fora, tentando não mostrar muito de si, do que sente. Em Carcereiros, não. Histórias pessoais são contadas aqui, com a alma do autor ficando muito mais à mostra. Não sei se pelo delay entre um livro e outro, o que deve ter feito sua escrita amadurecer, ou se simplesmente por quebra de amarras, nesse livro temos um narrador muito mais presente. O fascínio do Drauzio pela marginalidade desde antes mesmo de se tornar um médico é contado sem tabus. Acho que a empatia tão grande que carrega dentro de si (e até incompreensível em algumas vezes) levou-o a tentar compreender por que aquelas pessoas enfrentam tão dura realidade, por que vivem daquele jeito. 
E é com esses mesmos olhos benevolentes e sem julgamentos, que Drauzio narra a história dos carcereiros, quase sempre tão impactante e dura quanto a dos próprios detentos. Pessoas que, na maioria das vezes, acabaram numa profissão tão desgastante e enlouquecedora por pura necessidade. Muitos vêm da mesma realidade dos detentos, alguns até cresceram juntos com os presos, nas mesmas comunidades. É uma realidade dura. É difícil colocar-se na mesma pele durante a leitura. É difícil de se imaginar ali, naquele verdadeiro inferno. 
Quero continuar essa minha saga sobre o sistema carcerário brasileiro, sendo o próximo livro, com certeza, Prisioneiras. E desconfio que, por falar sobre mulheres, vai ser ainda mais impactante para mim. Mas, vamos em frente. Tentar desenvolver empatia nunca é demais. Ela sempre nos ajuda a pensar em alguma solução em prol do coletivo. Sistemas carcerários deveriam recuperar pessoas e assegurar a saúde física e psíquica dos profissionais que neles trabalham. Infelizmente ainda não é assim. Um dia há de mudar. E, para isso, precisamos estar conscientes da realidade, de todas as realidades. 

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