Título: Memorial de Maria Moura | Autor: Rachel de Queiroz | Editora: José Olympio | Ano: 2004 | Nº de Páginas: 503 | Livro Digital | Nota: 📖📖📖📖📖 + <3
Tenho que começar essa impressão literária dizendo que a leitura de Memorial de Maria Moura foi conflituosa para mim. A protagonista não é definitivamente uma personagem fácil de se analisar. Ela é dual, cheia de nuances, abismal de um jeito que eu nem sei descrever. Deve ter sido por isso que este livro ganhou uma adaptação para TV em um tempo tão curto, em apenas dois anos de sua publicação, que inclusive aconselho muitíssimo a assistir (apesar de eu ainda não a ter terminado). Maria Moura é dura, casca grossa mesmo, mas não porque ela é simplesmente “assim”, mas sim porque a vida fez isso dela. Moura é uma sobrevivente. Tudo, ou quase tudo, o que ela faz é por que ela tem que fazer. “Ou era ela, ou era o outro”, frase repetida umas mil vezes por ela durante o livro explica quem e por que Moura é o que é. Não dá para julgá-la por uma única perspectiva. Moura é heroína e anti-heroína ao mesmo tempo. E é isto. Para ser respeitada, para se tornar a “Dona Moura”, ela tem que assumir muito do seu lado masculino. E não só no jeito de se vestir, mas sobretudo na maneira de se comportar. Moura é agressiva, intransigente, toda isto ou aquilo, ou morte ou vida. É incontestável que ela precisa agir de tal maneira para vencer àquele mundo bruto. Ela precisa “deixar de ser mulher” para ter valor. No entanto, o que me deixou incomodada mesmo foi que, sempre que Moura é vulnerável, frágil é quando ela deixa sua feminilidade escapar, como se fragilidade e feminilidade fossem sinônimos, algo que não é verdade. Mas para aquela realidade sem amor, talvez essa premissa funcione. E falando em amor, outra coisa que me dilacera na história é a violência que vira amor, é o estupro que vira sexo. Maria Moura é tão órfã desse sentimento, que ela não percebe os abusos que sofre e o quanto eles determinam tudo o que ela é e todas as escolhas que faz. Moura é tão carente de amor, tão desconhecedora desse afeto que cairá na armadilha mais vil: apaixonar-se por qualquer um. Tal fato a colocará em um dilema moral: proteger o amor de sua vida ou conservar sua fama e honra? Só lendo para saber isso. Enfim, aconselho muitíssimo a leitura. Memorial de Maria Moura é um daqueles livros que fazem a gente ter conversa até o fim do mundo (apesar de ultimamente nem parecer que ele está tão longe assim ~risos de nervoso~), daqueles livros que nos dividem porque o certo e o errado se misturam ao ponto de parecer uma coisa só. Sem falar que a escrita da Rachel é uma coisa linda de se ver, com aquela latinidade/brasilidade que só nossos autores sabem ter. Texto incrível! |
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