O Sol na Cabeça: me despindo de mais um preconceito
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| Título: O Sol na Cabeça | Autor: Geovani Martins | Editora: Companhia das Letras | Ano: 2018 | Nº de Páginas: 120 | Livro Digital | Nota: 📖📖📖📖📖 |
Foi então que notei meu preconceito, porque uma de suas faces é também a da linguagem. E ainda que eu venha da periferia também, e ainda que eu não tenha tido dificuldade alguma em entender a linguagem, minha arrogância literária me fez relutar com a escrita.
Ainda bem que essa "estranheza", para gente usar um eufemismo aqui, só durou o primeiro conto. Agradeço aos céus por ter aprendido nessa vida o hábito de contestar as minhas "verdades" com frequência, pois, caso contrário, eu teria perdido de apreciar essa obra-prima que é O Sol na Cabeça.
Retratando de maneira agridoce a realidade da periferia carioca, os treze contos do livro nos presenteiam com histórias de personagens tão reais que quase nos são palpáveis. A realidade material escassa, a violência e a preocupação com elas, a simplicidade da infância, o uso de drogas e o choque de classes são contados com maestria e humanidade pelo Geovani Martins. No entanto, de todos os aspectos abordados pelo livro, o que mais me tocou e me marcou foi o preconceito e todas as formas que ele pode tomar. Dói demais de ler. Só a literatura mesmo para nos colocar numa realidade que não é a nossa e fazer com que a gente se sinta na pele do outro, sinta a dor do outro.
De todos os contos, gostei especialmente de Espiral e de O Mistério da Vila, ambos tendo como tema principal o preconceito, embora de tipos e de perspectivas diferentes. Enquanto o primeiro nos conta sobre um rapaz que sofre preconceito por causa de sua cor e do lugar de onde vem, e de como ele lida de maneira vingativa com isso; o segundo fala sobre preconceito religioso e de como o amor (e a gratidão) faz cair por terra qualquer diferença que possamos ter. Só a leitura desses dois contos já vale o livro inteiro.
É, O Sol na Cabeça desmascarou a mim mesma um preconceito que eu confesso que eu nem sabia que tinha. Ajudou-me a lembrar que na literatura cabe qualquer realidade, logo também a linguagem que a representa. Minha "estranheza" só mostra que, até mesmo em um ambiente tão livre e democrático como o das artes, nunca houve espaço para todo mundo. Que incrível viver em um tempo em que se abra espaço para livros como O Sol na Cabeça, ainda que timidamente. E, vamos ler para construir, a cada dia, versões melhores de nós mesmos.



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